Cerveja e Quaresma

Que a Igreja teve muita influência nas escolas europeias de cerveja nós sabemos, mas hoje vamos contar seu papel nos nascimentos de um estilo e uma marca, as experiências de dois cervejeiros ao reviver uma tradição de séculos passados, além de muitas pausas para curiosidades. Hoje falaremos da relação entre a cerveja e a quaresma.

Para muitos cristãos, a quaresma é um período de privações. Alguns deixam de consumir um alimento específico (como chocolate ou batata frita), outros suspendem algum hábito (como fumar), fazem jejum em alguns dias (ao que parece, todos os adultos deveriam) e muitos praticam abstinência ao álcool. Mas historicamente, especificamente na Idade Média, essa última opção não seria muito popular. Ao contrário, nessa época não era tão incomum fazer jejum de sólidos durante toda a quaresma, especialmente nos mosteiros. E adivinha quem salvava a vida dos padres durante esse período? Ele mesmo, nosso líquido mágico de sempre.

Curiosidade 1: Já contou alguma vez quantos dias separam o carnaval da páscoa? Se esse blog fosse sobre religião, teríamos assunto para uns três posts sobre como chegar nos 40 dias.

De volta aos mosteiros, no século XVII, alguns membros da Ordem dos Mínimos se mudou do sul da Itália para a região de Munique. Ao se adaptarem aos costumes da região, estes monges seguidores de São Francisco de Paula (Paulaner Mönche, em alemão) adotaram um estilo de cerveja popular (Bock) para sustentá-los durante a quaresma.

Curiosidade 2: As Bock surgiram na cidade de Einbeck, na Alemanha. Ao chegarem na região de Munique, o sotaque local transformava o nome da cidade em Einbock, dando origem ao nome do estilo.

Curiosidade 3: Se traduzirmos “ein bock” como duas palavras separadas, temos em português “um bode”. Então não se pergunte porque a maioria das Bock tem a figura do animal no rótulo na sua próxima viagem à Alemanha.

Voltando ao foco do artigo, os Paulaner acharam que as Bock não eram encorpadas o suficientes para serem consumidas por um período tão longo e resolveram turbiná-las. O resultado foi uma cerveja tão nutritiva e cheia de carboidratos, que eles a chamavam de pão líquido. Essa cerveja se tornou um estilo conhecido hoje em dia como Doppelbock (“dupla bock”). As Doppelbock de hoje são um pouco menos intensas, mas ainda apresentam um teor mais elevado de álcool e aroma bem forte de malte, presente também no sabor, um pouco adocicado em suas versões mais escuras.

Curiosidade 4: Diz a lenda que a cerveja ficou tão forte que alguns monges questionaram se ela violava as regras do jejum e enviaram algumas amostras ao Papa para decidir. Mas no caminho ela estragou e o Papa achou a cerveja tão ruim que considerou uma penitência bebê-la, liberando seu consumo.

Além de consumir a cerveja, os Paulaner as distribuíam para a população mais pobre. Isso gerou uma reclamação formal das cervejarias às autoridades locais contra os monges, em 1634. Para resolver o impasse, eles decidiram abrir uma cervejaria e vender sua criação a quem quisesse. Assim, se quisessem dar cerveja de graça e ter prejuízo, problema da empresa deles. No fim, o produto se tornou tão popular, que a cervejaria se tornou uma das maiores do país. Consegue chutar o nome dela?

(Se você fala alemão, nem precisaria ler isso tudo, bastaria ver o mestre cervejeiro da empresa recontar essa história no vídeo abaixo)

Curiosidade 5: a cerveja começou a ser comercializada com o nome de Salvator (até hoje no portfólio da cervejaria). Em homenagem, a maioria das cervejarias alemãs que hoje produzem Doppelbock, nomeiam seus rótulos com o sufixo –ator.

Se alguém já começou a cogitar esse tipo de jejum para a próxima quaresma e está se perguntando o quão saudável seria esse hábito, saiba que recentemente dois entusiastas (e produtores) das Bock resolveram testá-lo e compartilharam suas experiências. Em 2011, o cervejeiro de Iowa, J. Wilson, escreveu diariamente sua jornada em um blog, que mais tarde se tornou um livro (esse). E agora em 2019, Del Hall, de Ohio, está próximo de terminar seu desafio pessoal enquanto compartilha sua evolução no Youtube (aqui).

Ambos tiveram acompanhamento médico e, apesar de relatarem algum desconforto e fome nos primeiros dias, ao longo do período perceberam um crescente nível de energia e disposição. Ambos acabaram emagrecendo bastante, mas uma perda “positiva” de peso, com redução significativa de gordura. Wilson perdeu 11kg e Del Hall por enquanto já perdeu 18kg. Seu percentual de gordura corporal já reduziu mais de 10%! Para os dois, isso mostra que a prática dos monges não é apenas lenda e ainda poderia ser utilizada hoje por cristãos que desejam se desafiar neste período do ano. Nós já estamos pensando em adotar mesmo fora da quaresma para perder a barriguinha. E você? É cristão? Faz algum tipo de privação? Que tal ano que vem testar a dieta dos monges?

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